A sugestão de avanço não é substituir o Bolsa Família, mas mudar a direção das políticas de desenvolvimento, articulando bolsa ou salário com trabalho, através de políticas de geração de riqueza local e infraestrutura massiva, transformando o auxílio emergencial em um motor de inclusão produtiva
Introdução
Em abril de 2026, os economistas Esther Duflo e Abhijit Banerjee, laureados com o Nobel de Economia em 2019 por seus estudos de combate à pobreza baseados em evidências, concederam entrevista à Revista Exame, durante visita ao Brasil. Na ocasião, traçaram um diagnóstico contundente sobre o futuro do capitalismo global, centrado na ameaça representada pela inteligência artificial (IA) e pela concentração de riqueza (Pádua, 2026). Suas propostas incluem maior presença do Estado, tributação progressiva e a modernização de programas de transferência de renda, como a criação de um "Bolsa Família 2.0".
Das leituras da entrevista, publicada em 23 de abril de 2026, não foi difícil identificar a preocupação do entrevistador e entrevistados com a manutenção do capitalismo graças a presença do Estado e da adoção de políticas de redistribuição de riqueza.
Em vez de concordar ou discordar do conteúdo, fiquei com a curiosidade aguçada para conhecer as políticas adotadas pela China que, diferentemente das contradições estruturais da acumulação capitalista, avança no seu projeto de "socialismo com características chinesas para uma nova era", utilizando o planejamento estatal de longo prazo para enfrentar desafios semelhantes. Finalmente, não pude deixar de fazer um cotejamento com o Bolsa Família e as perspectivas políticas que se abrem para a continuidade do governo petista.
Neste texto, busco sintetizar as propostas dos economistas prêmios Nobel, contrapondo-as às políticas chinesas, com ênfase na articulação entre proteção social, trabalho e formação profissional e, ao final, busco cotejar com o programa Bolsa Família e as possibilidades desse programa avançar numa eventual continuidade e aprofundamento do governo da frente encabeçada por Lula.
O Diagnóstico de Duflo e Banerjee: IA, Desigualdade e Colapso Social
O argumento central de Duflo e Banerjee reside na previsão de que a IA ampliará a desigualdade de forma inédita, atingindo não apenas os trabalhadores de baixa qualificação, mas a classe média que ocupa empregos intelectuais facilmente substituíveis por máquinas (Pádua, 2026). "Essa será uma situação totalmente nova, em que a proteção social será necessária para as classes médias, que não estão acostumadas a isso", afirma Duflo. Banerjee complementa com um alerta de natureza fiscal: "O fato de haver agora quase uma revolta aberta dos ultrarricos contra o pagamento de impostos é o cerne da crise e, se eles eventualmente conseguirem se impor ao mundo, então não sei o que acontecerá" (Pádua, 2026). A conclusão é de que, sem a tributação dos super-ricos para financiar uma nova rede de proteção social, a sociedade caminha para o colapso.
Diante desse cenário, a dupla propõe duas frentes de ação. A primeira é a evolução das políticas de transferência de renda. Para Banerjee, o Brasil deveria superar a polarização em torno do Bolsa Família e liderar a experimentação de novos formatos: "Em vez de perguntar se é bom ou ruim, seria muito mais útil começar a pensar no que seria o Bolsa Família 2, 3 ou 4" (Pádua, 2026). Duflo, por sua vez, sugere inovações como o "Pix do Clima", transferências automáticas para famílias atingidas por eventos climáticos extremos. A segunda frente exige um Estado ativo na regulação da tecnologia, direcionando a IA para complementar o trabalho humano em vez de apenas substituí-lo.
O Contraponto Chinês: Planificação de Longo Prazo e Alívio pelo Trabalho
Enquanto a proposta de Duflo e Banerjee opera dentro da lógica de corrigir as falhas do capitalismo, a abordagem chinesa se estrutura sobre um modelo de planejamento estatal ativo que busca transcender as limitações dos Estados de bem-estar capitalistas, cf. Dados do Livro Branco (China, 2021). A resposta aos desafios da automação e da desigualdade não se limita a transferências de renda, mas se ancora no princípio da "Prosperidade Comum" e na "estratégia de prioridade ao emprego", atrelando a assistência social diretamente ao trabalho produtivo e à qualificação profissional.
A principal política que corporifica essa visão é o programa de "Alívio pelo Trabalho", que substitui a doação de bolsa ou “salário desemprego” por empregos em projetos de infraestrutura. Em 2025, o governo central chinês tem gasto vultosos investimentos estatais em infraestrutura rural, empregando mais de 4 milhões de trabalhadores de baixa renda (China, 2025). O princípio é claro: "os projetos são o veículo, o emprego e o aumento da renda são o objetivo", com a meta de que mais de 40% do investimento seja distribuído como salários diretos.
De forma complementar, o sistema de postos de trabalho de bem-estar social funciona como uma política de "garantia de base" para pessoas com dificuldades severas de empregabilidade, cf. dados do Livro Branco (China, 2021). Ambos os programas são intrinsecamente ligados a um sistema de formação e capacitação técnica.
A originalidade do modelo chinês reside na integração orgânica entre assistência social, trabalho e educação. A premissa é transformar o perfil da mão de obra de "força bruta" para "mão de obra técnica". Essa articulação se dá pelo ciclo "treinar, empregar e acompanhar", que opera sob três princípios: "definir o treinamento pela indústria, pela empresa e pelo posto de trabalho". Essa integração não é apenas técnica, mas uma estratégia de reprodução social da força de trabalho. Na prática, antes que um projeto de "Alívio pelo Trabalho" se inicie, o governo realiza um mapeamento das vagas e desenha cursos profissionalizantes específicos. A capacitação ocorre no próprio canteiro de obras, frequentemente pelo "modelo mestre-aprendiz", onde trabalhadores experientes transmitem conhecimentos técnicos aos novatos durante a execução das tarefas, combinando aprendizado teórico, prática imediata e geração de renda. Para os postos de bem-estar social, a formação padronizada inclui desde a operação de equipamentos e normas de segurança, ética profissional e a importância social da função, visando criar uma identidade profissional e combater a dependência da assistência estatal (Huangpi, 2024).
É possível avanço no programa brasileiro de combate à pobreza?
As propostas de Duflo e Banerjee e o modelo de planejamento chinês convergem no diagnóstico: o capitalismo contemporâneo, sob o impacto da inteligência artificial, exige ação estatal contundente para evitar o agravamento da desigualdade e a erosão da coesão social. Ambos endossam maior tributação dos super-ricos, programas de proteção social robustos e investimento em formação humana.
A divergência fundamental está na concepção política e no método. Os Nobel propõem um Estado regulador e redistribuidor que corrija o mercado por meio de impostos e transferências, propondo o avanço de programas como o Bolsa Família para garantir uma rede de segurança mais adaptável. A China, por sua vez, oferece um modelo de Estado Planificado - "Estado Desenvolvimentista de Orientação Socialista" - que busca não apenas proteger, mas integrar produtivamente o cidadão ao processo de desenvolvimento nacional, atrelando o benefício social ao trabalho e à qualificação profissional em larga escala. Se o primeiro modelo busca salvar o capitalismo de suas próprias contradições, o segundo se apresenta como um caminho alternativo de construção socialista, onde a política social é, antes de tudo, uma política de emprego e formação para o longo prazo.
Embora o presente estudo se baseie em uma análise exploratória de documentos oficiais e literatura recente sobre a experiência chinesa, mediada por ferramentas de síntese de dados e, considerando ainda as políticas públicas adotadas pelos governos petistas, notadamente o bolsa família, gostaria de me alongar um pouco mais sobre a ampliação desse programa do governo petista. É preciso reconhecer que, politicamente, é muito simplista atribuir aos governos petistas a pecha de populista ou assistencialista, pois o Bolsa Família - ou as políticas de transferência de renda - constituem tema de debate complexo e que envolve a explicitação de perspectivas políticas e socioeconômicas.
O Bolsa Família é consolidado politicamente, inclusive internacionalmente, como um programa de transferência de renda direta, com condicionalidades que visam garantir a segurança alimentar e o acesso a direitos sociais básicos (Brasil, 2023). Sua estrutura fundamenta-se em três pilares: a transferência de renda para alívio imediato da pobreza; as condicionalidades que reforçam o acesso à saúde e educação; e as ações complementares que buscam a emancipação das famílias (Ministério do Desenvolvimento Social, 2024).
Do ponto de vista socioeconômico, o programa é uma ferramenta de redistribuição, de tipo assistencial, que impacta diretamente os índices de bem-estar social. Estudos técnicos indicam que o programa contribui significativamente para a queda do Coeficiente de Gini da renda, sendo responsável por uma parcela relevante da redução da desigualdade no Brasil nas últimas décadas, conforme Notas Técnicas oficiais do IPEA (2023/2024) . Além disso, a eficiência do gasto público no programa é evidenciada por seu efeito multiplicador, onde o consumo das famílias beneficiárias estimula as economias locais, gerando um retorno positivo ao Produto Interno Bruto (PIB) superior ao valor investido.
É possível sugerir avanços para um amplo programa de desenvolvimento, distribuição de renda e combate à fome? Penso que SIM, mas é preciso levar em consideração a crise estrutural do capitalismo, com graves consequências no metabolismo natureza - homem, frente à qual não há saída para a humanidade se não houver um amplo processo de transformação estrutural para um novo modo de produzir a vida material, social e intelectual. Entretanto esse processo revolucionário, certamente em curso, será longo. Como não estamos às vésperas de uma revolução do tipo das ocorridas no século XX, penso que é preciso aprofundar as políticas de reforma, adentrando em aspectos da estrutura econômica, social, política, jurídica e científica. Essas reformas podem ser colocadas mais central e claramente no programa político de uma frente de esquerda, inclusive tendo em vista o que já está em discussão na pauta da cooperação bilateral entre Brasil e China. Mas esse avanço não pode ser mecânico, pois é preciso entender que se tratam de abordagens distintas em sua execução e filosofia, o que exige adaptações ao contexto brasileiro. Enquanto o Bolsa Família é focado na transferência direta de renda com condicionalidades (como saúde e educação), a estratégia chinesa de “Alívio Direcionado da Pobreza” baseia-se em uma transformação estrutural conduzida pelo Estado.
Para o governo Lula, adotar a "perspectiva chinesa" significaria transitar de um modelo predominantemente assistencial para um modelo de desenvolvimento produtivo-territorial, com reformas estruturais mais profundas e com foco nos seguintes pilares observados na China:
- Desenvolvimento da produção: Amplo e histórico programa de desenvolvimento da produção em todos os setores da economia, com avanço científico e tecnológico e uma política de pleno emprego e de renda para todos, reduzindo a desigualdade social e a fome;
- Desenvolvimento de Cadeias Produtivas Locais: Em vez de apenas transferir recursos financeiros, o governo chinês investe na criação de indústrias, na produção agropecuária, em cooperativas e turismo em regiões pobres para gerar empregos diretos;
- Investimento em Infraestrutura e Logística: A China prioriza a conexão de áreas rurais isoladas aos mercados nacionais através de trens de alta velocidade e internet, facilitando o escoamento da produção.
- Revitalização Rural: a China vem focando na Revitalização Rural Integral, pela qual busca reduzir a disparidade entre campo e cidade por meio de tecnologia e eficiência agrícola.
- Renda Básica Universal (RBU) Tecnológica: mais recentemente a China começou a testar modelos de Renda Básica Universal para lidar com a automação e a substituição de empregos por IA, focando na manutenção do consumo e na requalificação profissional.
Ao longo de 2024 e 2025, o governo brasileiro tem intensificado o diálogo com Pequim para aprender com essas opções políticas e com esses métodos (Lopes Marra de Sousa et alii, 2023). O lançamento do livro "Superar a Pobreza" de Xi Jinping no Brasil reforçou essa parceria. Também o recente livro de Fernando Haddad (2026) traz reflexões instigantes nos caminhos da transformação capitalista em curso. Em vista disso, a pergunta necessária é: Como é possível aplicar essas políticas no Brasil?
- Adoção de um amplo programa de neo-industrialização, inclusive usando os R$ 27 bilhões em investimentos chineses anunciados em 2025 para criar polos industriais (como de carros elétricos e semicondutores) em regiões com baixo IDH, gerando empregos que permitam a "saída" do Bolsa Família;
- Economia Verde: Adotar o modelo de "compensação ecológica" chinês, que paga aos cidadãos para reflorestar e cuidar de áreas ambientais, transformando a preservação em fonte de renda;
- Tecnologia no Campo: Implementar parcerias em tecnologia agrícola (agrotech) para pequenos produtores, inspiradas no modelo de agricultura moderna da China. Isso implica em adotar uma política de reforma agrária mais ousada e substantiva;
- Distanciamento gradativo, mas crescente, da concepção neoliberal e a adoção do lema “desenvolvimento à moda brasileira”, caminhando para ampliar a planificação de curto, médio e longo prazo, com o estabelecimento de metas, meios e recursos financeiros para alcançá-las e os resultados esperados.
Em resumo, a sugestão de avanço não é substituir o Bolsa Família, mas mudar a direção das políticas de desenvolvimento, articulando bolsa ou salário com trabalho, através de políticas de geração de riqueza local e infraestrutura massiva, transformando o auxílio emergencial em um motor de inclusão produtiva.
Referências
BANERJEE, Abhijit V.; DUFLO, Esther. Boa economia para tempos difíceis. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. 400 p.
BRASIL. [Presidência da República]. Lei nº 14.601, de 19 de junho de 2023. Institui o Programa Bolsa Família. Brasília, DF, 2023. Disponível em: http://www.planalto.gov.br. Acesso em: 30 abr. 2026.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). Bolsa Família: relatório de atividades 2023-2024. Brasília, DF: MDS, 2024.
CHINA. State Council Information Office. Poverty Alleviation: China’s Experience and Contribution (White Paper). Beijing: Foreign Languages Press, 2021.
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IPEA. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Brasil e China: 50 anos de relações diplomáticas. Brasília: Ipea, 2024.
JINPING, Xi. Superar a pobreza. São Paulo: Anita Garibaldi, 2024. 288 p.
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PÁDUA, Luciano. 'O Brasil deveria pensar no Bolsa Família 2', dizem vencedores do Nobel de Economia. Exame, São Paulo, 23 abr. 2026.
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SOUZA, Pedro H. G. Ferreira de. Uma história da desigualdade: a concentração de renda entre os ricos no Brasil (1926-2013). São Paulo: Hucitec, 2018.