1 Introdução
Ao final de 2025, fazer uma retrospectiva da educação brasileira não é um exercício neutro.
É um ato político.
Isso num período de profunda crise estrutural do capitalismo, bem como de crise conjuntural aguda e que atravessa todas as dimensões de nosso planeta e, em particular, da formação social brasileira.
Nosso foco, porém, será a educação.
E é preciso fazer um alerta: as perdas educacionais que acumulamos historicamente não são acidentes, nem falhas técnicas.
São resultado de escolhas históricas, feitas em um país marcado pela desigualdade estrutural, pela dependência econômica e pela luta permanente entre projetos de sociedade.
O que está em crise não é apenas a política educacional.
Está em crise o próprio compromisso do Estado-Nação com a formação da maioria da população, notadamente da classe trabalhadora.
2 Financiamento: discurso público, prática privatista
No financiamento da educação, a contradição é evidente.
Depois de anos de desfinanciamento brutal, houve alguma recomposição a partir de 2023.
Mas essa ficou abaixo das metas do Plano Nacional de Educação - que existe apenas no papel. Na prática, segue sendo descumprido.
O debate fiscal voltou a impor limites ao gasto social, à educação pública e ao Fundeb.
Fala-se em defesa da educação, mas nossos governos continuam pouco responsáveis pela RES PÚBLICA!
O que se pratica em todos os níveis, é a subordinação do direito educacional à lógica do mercado e do ajuste fiscal.
Mais grave ainda: temos um discurso público em defesa da escola pública, mas o MEC e as secretarias de educação estão atravessadas por interesses privatistas e pela influência direta do empresariado.
Essa não é uma contradição casual.
É a expressão da hegemonia do capital sobre a política educacional.
3 A LDO de 2025: o corte como método
Neste final de 2025, os cortes feitos na LDO escancaram as prioridades do legislativo nacional.
Educação, ciência e tecnologia foram novamente sacrificadas. Não por falta de recursos. Mas por decisão política.
A LDO reduziu o espaço orçamentário da educação, limitando qualquer possibilidade real de manutenção das políticas educacionais.
Na ciência e na tecnologia, os ataques foram diretos: menos recursos para universidades federais, para as bolsas de pós-graduação, para a pesquisa.
Enquanto isso, preservam-se as emendas parlamentares - um mecanismo de transferência de recursos públicos para interesses eleitoreiros e privados.
O orçamento se tornou moeda de troca.
A educação virou variável de ajuste.
A composição de nosso congresso revela os interesses de classe. A maioria de nossos legisladores não pensam o país, mas seus próprios interesses.
4 Acesso e desigualdade: quem fica de fora continua sendo os mesmos
Houve avanços pontuais no acesso à educação, com crescimento das matrículas, principalmente no tempo integral e na educação profissional, mesmo não havendo um projeto de formação integral.
No essencial a escola lamentavelmente não mudou. Continua um projeto burguês que não tem por objetivo a plena formação dos seres humanos.
A evasão e a reprovação seguem concentradas nos mesmos de sempre: nos filhos da classe trabalhadora; na juventude pobre, negra e das periferias; nos alunos do campo, das águas e das florestas.
Em síntese: o sistema educacional brasileiro continua selecionando, excluindo e reproduzindo desigualdades.
5 Qualidade não se resolve com discurso
Fala-se muito em qualidade.
Mas qualidade não se resolve no discurso ou em sucessivas reformas, situação agravada com a pandemia do Coronavírus.
Os indicadores em Matemática e alfabetização, priorizadas nas sucessivas reformas, não camuflam o papel da educação sob o capital.
E isso não é surpresa.
Seguimos com escolas precárias para alunos precarizados: escolas sem saneamento, sem acesso à internet, sem bibliotecas e sem laboratórios.
A crise da aprendizagem não é apenas pedagógica. Ela é material, social e política.
Sem condições escolares concretas, não há método que resolva o domínio dos saberes produzidos pela humanidade.
6 Trabalho docente: sem professor valorizado, não há educação
A situação do trabalho docente é alarmante a começar pela formação de professores precarizada ao longo dos anos.
Expandiu-se uma formação aligeirada, barata, a distância e funcional ao mercado.
Os salários seguem defasados.
A sobrecarga de trabalho é enorme.
Com muitos professores ensinando fora de sua área de formação.
O trabalho docente continua sem carreira, sem tempo pedagógico, sem condições dignas de trabalho e sem valorização salarial.
Valorizar o professor não pode ser apenas um slogan, mas é condição material para a educação pública de qualidade.
7 Eleições, polarização e luta de classes
Encerramos 2025 em um contexto eleitoral polarizado: de um lado, projetos que defendem a educação pública como direito social; de outro, projetos que tratam a educação como mercadoria, como gasto.
Essa disputa não é abstrata. Ela se expressa no orçamento. Na LDO. No Fundeb. Na universidade pública. Na escola da periferia.
Os limites são reais: financiamento bloqueado, pressão do mercado, ofensiva de uma concepção reacionária de mundo.
Mas também são reais as resistências: a mobilização docente, a defesa da universidade pública, a luta pelo novo PNE, as experiências locais de enfrentamento.
A história ensina: nenhum direito educacional foi concedido sem luta organizada.
8 Encerramento
A retrospectiva de 2025 deixa uma lição clara.
Não existe solução técnica para uma crise que é política.
Não existe neutralidade possível diante do desmonte da educação pública.
Os cortes na LDO para 2026 aprofundam uma lógica conhecida nos países capitalistas dependentes: formação humana subordinada à acumulação, ciência tratada como custo, educação reduzida a mercadoria.
2026 será um ano decisivo.
De disputa política.
De disputa eleitoral.
De disputa de projeto de sociedade.
Divididos, somos fracos.
Organizados, conscientes e em luta, criamos as condições para avançar.
Avançar na organização. Avançar na formação. Avançar na luta da classe trabalhadora.
A educação pública não se pede.
Se defende. Se organiza. Se conquista.