REVOLUCIONOU E ACABOU?

Breve etnografia do Ginásio Estadual Vocacional de Americana – GEVA

 

 

Ary Meirelles Jacobucci – Professor de Filosofia da Educação do Curso de Pedagogia do Centro Universitário Salesiano – Unidade de Ensino de Americana

 

 

O presente trabalho tem como proposta resgatar o contexto histórico, político e pedagógico que permitiu a criação e extinção do Ginásio Estadual Vocacional de Americana (GEVA). Também se propõe a trazer à tona a memória de alguns dos envolvidos nessa que é uma das mais belas e ricas experiências pedagógicas da educação no Brasil - os Ginásios Vocacionais -  e que, apesar da sua grandeza, ainda não é conhecida (e, reconhecida) até mesmo entre a grande maioria dos educadores de hoje.

Os Ginásios Vocacionais trouxeram inovadoras propostas como, por exemplo, estudos do meio, trabalhos em grupo, salas ambiente, interdisciplinaridade, temas transversais, etc e que hoje, quarenta anos depois, são apresentados como novidades em projetos como PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), CIEP (Centro Integrado de Educação Pública), ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e outros.

A proposta da existência dos Ginásios Vocacionais começou a ser discutida em 1961 quando uma comissão de especialistas em educação do ensino industrial e do secundário, constituída pela Secretaria da Educação da época, começou a estudar um novo sistema educacional de ensino que, entre outros objetivos, pretendia abarcar o ensino médio, secundário e industrial.

Era responsável pela coordenação dessa comissão a professora Maria Nilde Mascellani que, posteriormente, passou a responsabilizar-se pelos estabelecimentos vocacionais criados no Estado de São Paulo.

Assim, em 1962, foram instalados os Ginásios Vocacionais em São Paulo, Americana e Batatais, e nos anos subseqüentes, em Rio Claro, Barretos e São Caetano do Sul.

 

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Um dos grandes responsáveis pela vinda do Ginásio Vocacional para Americana foi o prefeito da época, o senhor Cid de Azevedo Marques, um entusiasta admirador do sistema vocacional, e que, graças ao seu empenho político, aliado ao fato de ser amigo particular do governador do Estado, o professor Carvalho Pinto, conseguiu contemplar Americana com essa escola orientada de conceitos modernos jamais vistos.

É importante salientar que o Ginásio Estadual Vocacional de Americana (GEVA) foi uma das escolas pioneiras, em função do município de Americana ter sido, na época, um dos maiores pólos têxteis do país e da América Latina. Já os outros ginásios, implantados no mesmo período, foram instalados em Batatais - por ser esta cidade um dos maiores centros agrícolas - e São Paulo - por ser a capital do Estado.

Escrever sobre o GEVA é caro, no sentido de querido, pois me traz recordações inusitadas e a escolha desse tema é parcialmente justificada pelas poucas análises e reflexões sobre esta experiência educacional e por eu ter sido integrante da turma inaugural deste Ginásio, o que acaba me definindo como sujeito e objeto desse trabalho.

Recordo-me de que ingressei no GEVA em 1962, aos onze anos de idade, na fase em que Comenius designa “puerícia” e foi uma experiência maravilhosa, muito marcante e muito significativa. Aos dez anos tinha concluído o antigo primário (Grupo Escolar “Dr. Heitor Penteado”) e, depois, tive que fazer um exame de admissão para ingressar no ginásio tradicional, onde funcionava o antigo Instituto de Educação “Presidente Kennedy”. Simultaneamente, fiz o exame para ingressar no GEVA sendo aprovado nos dois estabelecimentos.

Na verdade, a escolha pelo novo sistema de ensino foi feita pelos meus pais, apesar da localização do referido ginásio tradicional ser mais próxima do meu domicílio. Acredito que alguns desses fatores determinaram o meu ingresso no GEVA: a  nova proposta pedagógica, o funcionamento em período integral, a orientação vocacional e o currículo comum com a parte diversificada embasada nas práticas comerciais, nas artes plásticas e  industriais e nas práticas agrícolas através de aulas em laboratórios,  ateliês e oficinas.

Também credito à entrevista obrigatória um dos fatores determinantes para o meu ingresso no estabelecimento pois era uma novidade que, provavelmente, foi encarada pelos meus pais como indicadora da seriedade do Vocacional já que permitiu, a eles, expor os porquês da escolha que faziam.   

 

 

 

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Então, em 1962, como já coloquei, ingressei, juntamente com mais oitenta e nove adolescentes, no GEVA, e, já neste momento, outra novidade: classes mistas, compostas por 30 alunos e, de preferência, com igual número de meninos e meninas.

Foi um dos primeiros impactos e, a partir de então, comecei a perceber a diferença entre o verdadeiro sentido do ato educacional e o que Paulo Freire denominou de ensino tradicional - concepção bancária da educação: o aluno é tratado como mero depósito dos conhecimentos lançados pelo professor; educa-se para se arquivar o que se deposita” (Freire, 1980: 78-79).

 Essa percepção só foi possível porque eu mesmo havia saído de um sistema que cultivava todo o aparato do ensino tradicional: disciplina excessiva, rigidez na relação professor-aluno, na disposição enfileirada das carteiras, no ensino excessivamente propedêutico, na escassez de democracia e de oportunidades do aluno questionar.

Já no Vocacional deparei-me com uma situação completamente oposta, em que os professores, segundo Carl Rogers, tinham uma postura de “facilitadores”: os trabalhos eram feitos em equipes, era um ambiente aberto aos questionamentos, à fala e à reivindicação dos alunos. Nós vivíamos em um clima de perfeita interação e a instituição propiciava a integração entre escola e comunidade, com os pais atuando, assídua e efetivamente, no ambiente educativo.

O que a escola oferecia era algo de muito sofisticado e significativo. O ideal pedagógico desse novo sistema era o de formar um aluno crítico, contestador, ativo, participativo e integrante sujeito do processo educativo, e não mero receptor.

Costuma-se dizer que o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau provoca no século XVIII uma “revolução copernicana: assim como Copérnico inverte o centro do nosso sistema astronômico, Rousseau coloca a criança no centro dos interesses pedagógicos. Assim como Rousseau, o Ginásio Vocacional provocou também uma revolução copernicana, na medida em que colocou os seus alunos no centro dos interesses pedagógicos. 

Para o GEVA, o importante é adequar as necessidades individuais ao meio social. Retratar, o quanto possível, a vida. Promover integração por experiência. Experiências vivenciadas, desafios cognitivos e situações problemáticas. Como cita  Dewey o aprender a aprender, no qual o  processo de aquisição do saber é mais importante do que o próprio saber.

Diante desta perspectiva, percebi que existia uma relação “erótica”, isto é, uma relação vital, fundamental, entre os conteúdos programáticos e as nossas necessidades e perspectivas, o que tornava o ensino essencialmente prazeroso.

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Para isso, os professores demonstravam enorme esforço na tentativa de conduzir os alunos ao território do conhecimento, como se quisessem levá-los à Grécia pré-socrática, quando Pitágoras utiliza o termo philosophia, unindo philia, cujo significado é “amizade à sophia, que significa “sabedoria para indicar a “procura amorosa da sabedoria”. O conhecimento não era imposto aos alunos, era algo conquistado, buscado e exercitado por eles.

É relevante salientar que eram freqüentes as aulas interdisciplinares mediante os estudos do meio, o que permitia a articulação entre teoria e prática e entre as diversas áreas do conhecimento uma vez que se constatava no real o que havia sido visto a partir do discurso teórico dos diversos campos do saber e, vice-versa.

Após quatro anos dessa rica convivência, sem aspectos discriminatórios raciais e sociais, os alunos, em sua maioria, foram obrigados a ingressar no ensino médio tradicional porque não havia, em Americana, a extensão desse projeto pedagógico para outros níveis de ensino.

Essa extensão somente existia na capital, a partir de 1963, no Colégio Vocacional Oswaldo Aranha. Diante disso, não restou outra opção a não ser o reingresso no antigo sistema.

Foi uma diferença brutal e avassaladora. Deparei-me com um sentimento de “retrocesso”, uma vez que inexistiam os trabalhos em grupos, a disposição das carteiras em círculos, o ambiente aberto ao diálogo, a postura fraterna e flexível por parte dos professores, a integração entre os pares, entre a comunidade escolar e a extra-escolar, bem como todos os aspectos constantes nos princípios da Escola Nova, por John Dewey e pelo brasileiro Anísio Teixeira. Pois, segundo este:

Os ideais e aspirações, contidos no sistema social democrático, envolvem a igualdade rigorosa de oportunidades entre todos os indivíduos, o virtual desaparecimento das desigualdades econômicas e uma sociedade em que a felicidade dos homens seja amparada e facilitada pelas formas mais lúcidas e mais ordenadas. Essas aspirações e esses ideais serão, porém, uma farsa, se não os fizermos dominar profundamente o sistema público de educação (Teixeira, 1967: 148-149).

Em função disso, uma considerável parte dos alunos vindos do GEVA para o então Instituto de Educação Presidente Kennedy, no qual funcionavam os cursos secundários denominados Científico, Clássico e Normal, sentiu grandes dificuldades de readaptação o que ocasionou, para alguns, a evasão escolar.  Pois, no ensino médio tradicional, os ex-alunos do GEVA se depararam com um quadro pedagógico de alta competitividade, com avaliações

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constantes através das   famosas sabatinas” e as temidas” chamadas orais, além de se sentirem “perseguidos” em função da rivalidade existente entre as duas correntes pedagógicas – os princípios da Escola Nova e os princípios do Ensino Tradicional.

Essa “perseguição” era evidente na postura de alguns professores e de alguns alunos do antigo sistema e por parte da direção do Instituto, que nos  direcionava um “olhar” inquisidor , como se fôssemos heréticos.

            É bom frisar que ingressei no Instituto de Educação Presidente Kennedy aos quinze anos de idade, no ano de 1966, ou seja, dois anos após o golpe da ditadura militar. Neste contexto, como se sabe, toda a postura pedagógica excessivamente autoritária era legitimada pelo, então, sistema político.

Portanto, não foi circunstancial que, três anos depois, em 1969, auge repressivo da ditadura militar, os ginásios vocacionais fossem extintos, denominados subversivos e, em Americana, tanques de guerra do Exército se fixassem na entrada do Ginásio Estadual Vocacional João XXIII, de Americana, juntamente com soldados armados. É importante destacar que a partir de 1965, o GEVA passou a denominar-se “João XXIII”, conforme o Decreto n. 45.733 publicado no Diário Oficial do Estado de 25 de Dezembro de 1965.

Nesta época, a do fechamento do ginásio, estava prevista a inclusão do segundo ciclo, semelhante ao existente na capital. Em vez disso, a extinção e o início de um silêncio que, para mim, está há muito tempo precisando ser rompido.

Por isso, reafirmo ser um dos objetivos desse trabalho o resgate histórico, político e pedagógico do que caiu no esquecimento, no silêncio. Um passado que, recente, de apenas quatro décadas, e que suscitou em mim o questionamento, a inquietação: revolucionou e acabou?

Sabemos que, em Filosofia, existe um eterno inquirir, um questionar, enfim, nada está acabado, pronto, definitivo. Neidson Rodrigues faz uma abordagem muito significativa sobre essa questão:

A interrogação deve dirigir-se aos agentes do fazer, aos instrumentos da produção, aos seus pressupostos objetivos e resultados. Tal atitude é de permanente inquirição. Não é de resposta. Não há ponto final na investigação filosófica. Seu estilo é de reticências... Interrogar é assumir a crença de que nada está assentado e nada é definitivo, mas provisório e parcial. A filosofia não é supersaber que se instala como soberano sobre outros saberes. Ela é como um farol, que não existe para iluminar os caminhos do barco no mar, mas alertar quanto à direção a ser seguida, para evitar os desvios e os perigos de uma rota inesperada. Não se propõe a ensinar a verdade, mas a evitar o engano (Rodrigues, 1987:15).

 

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Resolvi realizar esse resgate, uma vez que sempre acreditei ser esta proposta educacional dos Ginásios Vocacionais, algo muito significativo para os seus ex-alunos, para o Sistema Nacional de Educação, e para a história pedagógica do Estado de São Paulo e do Brasil, bem como para o contexto da época.

Em outras palavras, para mim, manter o silêncio que se seguiu à extinção do GEVA e de todos os Vocacionais, seria como se a ditadura militar, aliada a outros interesses, tivesse conseguido destituir a Educação, do privilégio de renovar-se, de modernizar-se.

Enfim, todas as reminiscências das experiências vivenciadas por mim e pelos meus colegas, tudo o que chamei de “relação erótica” que tivemos dentro desse sistema em que nos víamos como uma “grande família”, me traz sempre o grande filósofo grego, Platão, que, no livro VII de A República, relata - como se sabe -  o famoso mito da caverna.

Relembro este mito[1] porque, entre outras interpretações, permite  alegorizar a evolução do processo do conhecimento e, também, a participação do filósofo, do seu dever de comprometer-se com a atividade política. Sua análise pode ser feita, pelo menos, sob dois pontos de vista: o epistemológico (relativo ao conhecimento) e o político (que, por sua vez, desdobrará implicações pedagógicas).

Assim, permito-me aqui, fazer uma relação entre esta alegoria do filósofo grego e o que vivenciei em minha trajetória no GEVA: neste espaço educacional tinha sempre a impressão de que os mestres faziam um grande esforço para que saíssemos da caverna, das sombras, e que fôssemos contemplar a luz, a verdadeira realidade.

Faço questão de demarcar mais essa impressão porque hoje percebo que, entre tantos aprendizados que a criação e a extinção do GEVA me proporcionou, ficou também esta bela - e, ao mesmo tempo, triste -  lição: a grande maioria das pessoas acostuma-se facilmente com as pseudos verdades, com as aparências e, quem quer que busque a verdade, que tenha amor pelo conhecimento, pela justiça, pela beleza, corre um grande risco de ser castrado, de ser eliminado.

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Como afirmava Platão, é perdoável uma criança que tem medo do escuro, o que é imperdoável é um homem com medo da luz.

Baseado em minha memória e nas pesquisas que fiz para este trabalho, posso afirmar, portanto, que o GEVA propiciava condições aos alunos para libertarem-se dos grilhões e para contemplarem a verdadeira realidade.  E, também, que o Vocacional permitia ao aluno passar da opinião (doxa) para a  ciência (episteme).

Infelizmente, como já disse, o contexto político, histórico e pedagógico da época, obrigou estes alunos a voltarem para o interior da caverna.

No entanto, apesar deste retorno que também vivi, acredito que a inquietude que os acontecimentos descritos neste trabalho, pretende justificar, incentivaram-me a buscar sempre uma postura mais crítica, mais participativa - portanto, transformadora - e, incluo neste percurso a minha graduação em Filosofia pois como afirmou Georges Gusdorf:

A consciência filosófica é a consciência da consciência. Ela libera-se perpetuamente mediante o distanciamento da reflexão. O filósofo estabelece uma perspectiva em relação ao pensamento dos outros, em relação ao seu próprio pensamento e à sua própria vida. Ele procura as vistas panorâmicas, porque a filosofia esboça uma teoria dos conjuntos humanos. E mesmo se a tentativa está condenada ao malogro, se há que retomá-la sempre segundo a renovação dos conhecimentos e das épocas, o filósofo, ao menos continua a ser o mantenedor de uma exigência permanente e infatigável, na qual se afirma a honra do espírito humano (Gusdorf,1963: 314). 

Em minha experiência docente[2], tenho constatado que muito daquilo que se propõe como novidade nos dias atuais, em encontros de professores, cursos de treinamento, melhoria na qualidade de ensino, já tínhamos vivenciado há quatro décadas enquanto alunos do GEVA, e que hoje procuro associar e transmitir para alunos e profissionais da área da educação.

Esta postura pedagógica pode ser creditada como o primeiro passo - ainda que inconsciente durante vários anos - que dei em direção a realizar este trabalho cujo eixo é uma proposta de resgate da significação do GEVA para a Educação.

Com este percurso, acredito, estarei contribuindo para trazer à tona uma experiência que, aparentemente caiu no esquecimento.

 

 

 

 

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Nesta tentativa, fiz uma breve abordagem da situação econômica, política e educacional dos anos 50 e 60 para compreendermos o contexto histórico e sua influência no sistema educacional.

Também procurei demarcar os aspectos educacionais que contribuíram para alterar, nestes períodos, a estrutura pedagógica do ensino brasileiro como, por exemplo, o ideal desenvolvimentista e o populismo, a reforma do ensino (a lei 4.024/61), o golpe militar, a escola tecnicista e o desenvolvimentismo.

Buscando clarear como a cidade de Americana participou de todas estas tentativas de renovações pedagógicas ao ser incluída como uma das cidades a receber um Ginásio Vocacional, apresento a situação do município na década de 60 abordando os principais aspectos históricos, sua localização (aspectos físicos e demográficos), a produção agrícola, os aspectos culturais e a sua produção industrial - uma das principais causas da instalação do Vocacional em Americana.

Em relação à experiência de renovação do ensino secundário em São Paulo enfoquei a fundação do GEVA explicitando as diferenças das pedagogias tradicional e renovada, os princípios e métodos da proposta pedagógica do ginásio, os estudos do meio, a importância das oficinas e ateliês, os trabalhos em grupos, pesquisas, relatórios e discussões. 

          Também abordei a questão da extinção do ginásio, os fatores que levaram ao fechamento, o rótulo de uma escola subversiva e o porquê do silêncio posterior.

          Em razão da escassez de dados e documentos incluí, neste trabalho, uma pesquisa com ex-alunos, ex-funcionária, ex-professor, ex-coordenadora e ex-diretora. Em seguida, apresento algumas conclusões que o percurso deste trabalho me permitiu:

Não fui ao governo, nem às escolas particulares, para confirmar se baseam suas propostas nas mesmas fontes que geraram os Ginásios Vocacionais...Apesar deste limite, como já disse, não resisti à vontade de ampliar o paralelo anterior, mesmo reconhecendo-o superficial: de um lado, a decantada excelência das escolas particulares de Ensino Fundamental e Ensino Médio, incluindo, em suas propostas, estudo do meio, trabalhos em grupo, inserção dos temas transversais, etc e, de outro, a profunda deficiência e caos do ensino público nestes dois níveis.

Vêm-me, então, nova série de questões: até onde seria possível implantar, em massa, o espírito dos Vocacionais que se concretiza em período integral, reciclagem de professor, nova metodologia, trabalhos em grupo, estudos do meio - estratégias pedagógicas vistas, ainda hoje, como onerosas para o Estado?

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Tal perfil, acredito, servirá por muito tempo como forte objeção, para muitos, ao tipo de escola que foi o Vocacional, considerada como um privilégio, uma utopia, ou um sonho, em um país como o nosso, inclusive pelos que lá estiveram, como é colocado em boa parte das entrevistas que fiz.

Não quero dizer, com isso, que os GVs seriam os salvadores da escola pública atual. O que posso dizer, já no fim desta dissertação, é que o silêncio posterior sobre os Vocacionais, a desinformação que persiste nos próprios meios educacionais, não podem impedir que esta experiência de escola pública nos anos 60, seja resgatada, revista e aproveitada para este futuro melhor que se planeja para o ensino público.

É interessante notar que educadores, pedagogos e políticos pouco tentaram estudar os Ginásios Vocacionais a fundo e, portanto, pouco tentaram verificar como esta experiência poderia ser recuperada. Ou seja, mesmo considerando os limites deste trabalho espero que este possa contribuir para que, no mínimo, em nosso meio educacional, mais pesquisadores, educadores ou envolvidos com o ensino brasileiro ampliem, um pouco mais, seus olhares sobre os Vocacionais.

Uma experiência que, apesar da sua brevidade pode ser vista sob um novo prisma. Nesta hora, acredito, valer a pena recuperar Sêneca:

Aristóteles e Hipócrates lamentam-se da brevidade da vida e censuram a natureza por haver destinado     uma duração tão curta à existência do homem que é chamado a tão altos destinos, enquanto que concedeu maior longevidade aos veados, aos  corvos e a outros animais. Mas Sêneca responde sabiamente: Não recebemos uma vida breve, mas torna-mo-la breve; nem temos menos que o necessário de vida, mas desperdiça-mo-la. Se se souber fazer bom uso da vida, ela é longa! E acrescenta: Foi-nos concedida uma vida suficientemente ampla para conduzir a bom termo as coisas mais importantes, desde que seja toda ela bem empregue (Comenius, 1957: 195).

Se se  fizer bom uso das propostas e das inovações dos GVs e, em Americana, particularmente, do GEVA, estes ginásios terão vida longa, quanto merecem...Apenas como última ressalva poder-se-ia levantar um questionamento sobre os elementos constitutivos dessa trajetória histórico-político e pedagógica, levantando-se a hipótese de que o GEVA seria uma instituição voltada para os valores ideológicos do desenvolvimentismo e que acabaria servindo aos interesses do capitalismo internacional e, ainda, de que os professores eram selecionados e treinados para esse tipo de proposta pedagógica.

Pode-se questionar, também, que os ideários dos Vocacionais vinham teoricamente da filosofia da escola ativa (Dewey), da escola como serviço à sociedade, mas que, na realidade,

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acabariam sendo um serviço prestado exclusivamente à industrialização. Ou seja, um serviço que atenderia aos interesses do capitalismo formando mão-de-obra especializada (como sugere a lei 5692/71 decorrente de um modelo trazido por especialistas norte-americanos quando foi firmado em 1966 o acordo MEC-USAID).

Ainda que essas hipóteses fossem verdadeiras não iriam tirar a significação, a riqueza, a contribuição pedagógica e educacional do projeto, do seu ideário e da sua importância por todos os pontos que, acredito, foram expostos ao longo deste trabalho.

Pois que, reafirmo, o GEVA visava proporcionar aos seus alunos a busca do encontro com a sua aptidão, a sua vocação e não, necessariamente, vincular seus objetivos com a idéia de produtividade no cenário econômico.

Daí o nome de Ginásio Vocacional que, segunda a Profª. Áurea Sigrist era, para muitos, uma instituição confundida com escola profissionalizante.Quem esteve lá, não teria confundido. Eu fui um deles. Participei desta proposta que está na contemporaneidade dos projetos educacionais e que suscitou este mestrado: contra a perda da memória, contra o desconhecimento do projeto dos GVs e pela luta de um resgate histórico que, talvez, possa contribuir para a possibilidade de se concretizar um ideal que, abortado tão drasticamente, traz, até mesmo por sua brevidade e dramática interrupção, a necessidade de ser estudado, resgatado, reavaliado por todos que desejam, realmente, uma outra educação que não a tão combalida escola pública atual.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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[1] No mito criado por Platão, a maioria dos seres humanos se encontra prisioneira em uma caverna permanecendo de costas para a abertura luminosa e de frente para a parede escura do fundo. Devido a luz que entra na caverna o prisioneiro contempla na parede do fundo as projeções dos seres que compõem a realidade. Acostumado a ver somente essas projeções, assume a ilusão do que vê – as sombras do real – como se fosse a verdadeira realidade. Se escapasse da caverna e alcançasse o mundo luminoso da realidade, se libertaria da ilusão; mas, acostumado às sombras, às ilusões, teria que  habituar os olhos à visão do real. Primeiro, olharia as estrelas da noite; posteriormente, as imagens refletidas nas águas tranqüilas até que pudessem encarar diretamente o sol e enxergar a fonte de toda luminosidade. Para Platão, somente os filósofos, os sábios – eternos buscadores da verdade – é que teriam condições de libertar-se da ilusão, do mundo sensível e atingir a plena sabedoria da realidade. Ao retornar, os seus antigos companheiros o tomariam por louco não acreditando em suas palavras.

[2] Iniciada em agosto de 1978 como professor na rede pública estadual em vários estabelecimentos de ensino em Americana e no litoral paulista. Dez anos depois, ingressei na UNISAL – U.E. de Americana, como professor de Filosofia da Educação, no curso de Pedagogia